O mundo dentro do aquário

Depois que o cara do “serviço de bordo” saiu de perto da gente e que cada uma colocou seu fone e fechou os olhos, fiquei pensando no que ele falou, fui ficando com raiva da nossa resposta. Só dissemos um “não”, quando a gente deveria ter respondido que, ao invés de ver a paisagem da cabine do motorista, queríamos mesmo ver a minha bela mão na cara dele ou a ótima situação dele se metêssemos um lindo processo por assédio sexual nas costas dele e da empresa. Fiquei com raiva do que ele falou, raiva dele, raiva de todos os chilenos que nos encheram o saco nessa viagem, raiva do que temos que passar por causa de uma merda de esteriótipo da mulher brasileira. Talvez, para alguns, tudo é exagero meu e tudo que eu estou falando é um monte de baboseira feminista, mas não, é a nossa realidade, de nós, mulheres, que temos que passar, não só no Chile, mas em todos os lugares, por essas situações só pelo fato de sermos mulheres. Tipo, eu estava cansada, cansada dos motoristas mandando beijos, de todos os caras na rua terem sempre que falar alguma coisa, dos garçons pedindo para tirar foto, dos policiais também dando em cima e, agora, aquilo no ônibus da volta??!! Era só aquilo mesmo que faltava a gente escutar. Mas, é claro, não era só isso e, não, nem todos os chilenos são chatos. Toda essa raiva e cansaço se juntaram com todos os maus sentimentos que eu vinha sentindo antes mesmo de viajar e que se acentuaram ao longo da viagem e, então, comecei a chorar silenciosamente no ônibus. Chorei, chorei muito, como há muito tempo não chorava. Estava muito triste. Por causa disso (e para vocês não ficarem me achando uma louca chorona), depois de contar como foi fora, decidi, agora, me abrir um pouco e contar para vocês como tudo estava dentro do aquário.

Quando viajei sozinha no início de 2013, descobri que podia ser eu mesma e estava, finalmente, feliz com isso. Voltei cheia de pensamentos novos e autoconfiante, sabendo que eu não precisava ser nada além de mim. Fui perdendo toda essa autoconfiança durante o ano. A rotina, os padrões de beleza e as mesmas decepções foram destruindo tudo que construí ao longo daqueles 18 dias de viagem. Quando viajei com minhas primas, também foi difícil porque eu não era mais eu, eu era três pessoas, as três brasileiras. Foram 33 dias de muita diversão, irritação e muito pouco de profundidade. Faltou, sabe? Faltou autoconhecimento, reflexão, musicalidade, conexão, pores e nasceres do sol. Faltou sentir mais. Os poucos momentos em que essas coisas aconteceram foram os momentos em que fui verdadeiramente feliz durante a viagem, e eu sabia que estava sendo feliz. Deitar nas pedras de Punta del Diablo admirando o céu mais estrelado que já vi com uma das pessoas mais especiais que já conheci (um novo lindo amigo). Sentir meu coração bater no ritmo dos tambores do candombe callejero em plena madrugada fria de Valizas. Caminhar por aquela imensidão de areia entre Valizas e Cabo Polonio e o mesmo especial e lindo amigo me esperar, e nós não precisarmos dizer nada um para o outro, só estar ali, andando lado a lado. Ficar para trás, na mesma caminhada, para acompanhar a Cassy e conversar verdadeiramente. Simplesmente comer, beber e falar besteiras com as minhas primas em uma mesa de bar em um lindo fim de tarde em Cabo Polonio. Conhecer o cara mais bonito e carinhoso que alguém poderia encontrar, e ser convidada por ele para assistir ao nascer do sol na praia, e ele me emprestar seu casaco porque eu estava com frio e tentar esquentar minhas mãos e, depois, ainda me levar para casa em minha última noite em Valizas. A frase “You are beautiful” escrita em minha mão, na minha última noite em Buenos Aires, em uma brincadeira de escrever nas mãos entre mim e o australiano querido que se hospedou no mesmo quarto que eu durante os quatro dias que ficamos lá. A emoção de ver a Puente del Inca tão linda como nas milhares de fotos que eu havia visto quando sonhava ir até lá. A recepção calorosa de Valpo gritando meu nome por suas paredes. Foram poucos e lindos momentos que, infelizmente, naquele instante em que comecei a chorar no ônibus (e em outros momentos depois de chegar a Porto Alegre), não foram capazes de apagar aqueles que me irritaram profundamente ou que me fizeram sentir pena de mim mesma. Eu pensava que reencontraria aquela guria autoconfiante e alegre que descobri na outra vez, mas isso não aconteceu. Foi como se, quando entrei naquele ônibus rumo ao Chuí, eu tivesse tomado algum alucinógeno, e o que tinha para ser lindo tivesse virado uma grande bad trip, mas, como diria o personagem Mark, do filme “Paraísos Artificiais”, as drogas (ou, no meu caso, as viagens) não causam a bad trip e, sim, potencializam o que já existia. Fui para essa viagem achando que encontraria a cura, mas o que encontrei foram todas as coisas das quais eu queria fugir e, finalmente, tive que enfrentá-las, até mesmo depois de voltar. Sim, não tem como fugir dos nossos problemas viajando, ainda mais se eles forem de um âmbito tão pessoal como é a nossa alma.

Nos meus últimos dias no Chile (todos de Santiago), tive noites mal dormidas, o ar seco irritava minha garganta, e eu tinha pesadelos. No ônibus de Santiago para Buenos Aires, cheguei ao meu limite de cansaço e irritação. Nos meus primeiros dias de volta ao Brasil, tive a oportunidade de ir para uma casa retirada, perto de uma lagoa, onde pude escrever mais no meu caderno de viagem enquanto tomava chimarrão no balanço da rede. Era tudo que eu precisava: reclusão. Dessa vez, uma viagem para dentro de mim, para dentro do aquário. Precisava porque tinha muita coisa para digerir, para lembrar, para deixar para trás. Eu estava bastante deprimida. Em um dos meus últimos dias nessa casa retirada, resolvi ver sozinha o pôr do sol em frente à lagoa. Quase pude ouvir palavras vindo das águas como Kerouac, em “Big Sur”. Fechei os olhos, respirei profundamente, sentindo o vento bagunçando meus cabelos ao som de Pink Floyd. Pensei muito, conversei com o céu, brinquei de figuras nas nuvens e tentei entender todos aqueles sentimentos contraditórios dentro de mim. Precisava só sentar lá e ficar quieta. Eu acabava de voltar de 33 dias de viagem, e ninguém volta normal. Aos poucos, a gente vai parando para analisar tudo, para entender tudo que aconteceu e o que não aconteceu, os motivos de termos tido certas atitudes ou tomado certas decisões, ou para lembrar de repente de coisas que a gente esqueceu, ou recordar momentos bons e que nos fizeram muito bem e que ainda nos fazem sorrir. Eu só estava meio triste, meio pensativa, lembrando de tudo, tentando encontrar respostas para a pergunta “E agora?”. Fui, fiz a viagem que eu queria fazer, voltei. E agora? O que eu faço agora? O que acontece agora? O que mudou? O que eu aprendi com isso tudo? Como eu faço para deixar para trás tudo que não acrescentou em nada? Como eu faço para deixar para trás meus arrependimentos? Como eu faço para não me sentir mais do jeito que eu me sinto a respeito de mim mesma? É, eu sei. Eram mais de uma pergunta.

O vento, o movimento das águas, as cores do céu mudando pouco a pouco me fizeram bem, e eu já me sentia melhor. À noite, já deitada, chorei muito novamente, mas foram as últimas lágrimas. No dia seguinte, estava pronta para começar tudo de novo. Eu não era e não sou a mesma que saiu daqui dia 29 de dezembro de 2013. Eu era e eu sou outra e, toda vez que voltar, serei outra, e outra, e outra, nunca igual. Ainda bem. Hoje, me sinto melhor e feliz. Sei que ainda tenho algumas coisas para resolver aqui dentro do meu aquário e acho que ainda vai levar mais algum tempo, mas eu garanto que, de lá pra cá, muitas coisas foram compreendidas e resolvidas e não doem mais. Estou ficando curada e até já viajei de novo. Minas Gerais veio para terminar de fazer o que aqueles 33 dias entre Uruguai, Argentina e Chile e os dias de retiro perto da lagoa começaram. Ah, Minas Gerais…

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