Sem lenço, sem dinheiro, sem teto, mas com documento em Punta del Este

Dormimos três horas e pouco, levantamos, arrumamos nossas coisas rápido, tomamos café da manhã, fizemos check-out, deixamos nossas coisas no hostel e fomos trocar nossas passagens para o Chuí: as gurias, o horário; eu, o destino (174 pesos pela Rutas del Sol). A mulher não podia na hora, então nós fomos dar uma volta, matar tempo e, como, no hostel, não deixaram a gente usar a cozinha para esquentar a comida que já tínhamos (não custava nada né), fomos almoçar num restaurante, ostentação que só foi possível porque a Carol tinha cartão de crédito. Comi um chivito canadiense al plato muito demais. O nome do restaurante é El Trueno, e o atendimento foi ótimo.

Coisa mais linda!

Depois de almoçar, conseguimos trocar nossas passagens e, no caminho de volta para o hostel, surgiu o primo da Carol de carro. Ele nos levou para dar uma volta na cidade, para o hostel (para pegarmos nossas coisas) e depois para a esquina onde se pega os ônibus. Bá, foi uma baita ajuda. Logo, umas 16h e pouco, me despedi das gurias e me fui para San Carlos tentar passagem para Porto Alegre. Depois de tanto tempo, estava viajando sozinha novamente.

Depois de duas horas e meia de viagem, cheguei em San Carlos, não achei a empresa TTL (empresa que faz trajeto direto para Poa) e ninguém soube me dizer onde fica. Ao invés de ficar perdendo tempo procurando, decidi ir para Punta del Este ($ 41 pelo ônibus comum Codesa). Olha aí os imprevistos de novo.

No terminal de lá, no guichê da TTL, descobri que só havia passagens para Porto Alegre no dia 9 e era, apenas, dia 2. Mas, tudo bem, mais imprevistos, bora passar essa noite aqui e, no dia seguinte, voltar tudo até o Chuí. Entrei na fila e, quase chegando minha vez, lembrei de uma coisa que euzinha, Ellen, que dá dicas para todo mundo, esqueci de fazer: habilitar o cartão. Por ironia, me vi pobre, sem teto e sem poder voltar para casa em uma das cidades mais caras do mundo. Ok, mais imprevistos, só que, com esse, eu me desesperei por alguns longos minutos, o coração disparou, eu comecei a tremer, pensei em ligar para os meus pais para pedir ajuda, mas, aos poucos, fui voltando a mim e comecei a pensar com mais calma. Meus pais não poderiam fazer nada e iriam ficar preocupados, então percebi que teria que resolver sozinha. Pensei, olhei o verso do cartão e achei um número de telefone para ligar desde um país estrangeiro. Ao lado do número, escrito que era permitido ligação a cobrar. Eram as coisas começando a darem certo. Ou quase isso, já que foram várias tentativas fracassadas, as mãos tremendo para digitar o bando de números que pedem, tanta burocracia, ligação caindo quando estava quase conseguindo a liberação, várias transferências de ligações, um leve desespero e irritação voltando com um serviço tão ineficiente.

Nisso, um cara, com uns 40/50 e poucos anos, que estava na fila atrás de mim e era brasileiro viu tudo e perguntou o que estava acontecendo. Expliquei, e ele me ofereceu ficar na casa dele e de seu pai lá, mas, mesmo ele sendo discreto e respeitoso de certa forma, senti, através de um conjunto de feições, outras intenções na proposta para além de simplesmente ajudar alguém que não tinha onde passar a noite. Não gostando, disse a ele que ia continuar tentando ligar e agradeci o convite. Ele, mesmo assim, insistiu em querer me ajudar de alguma forma. Sendo assim, falei que, se ele queria mesmo me ajudar, ele podia completar o valor da minha passagem para o Chuí (que custava 373 pesos pela Cot), e ele me ajudou. É, simples assim. Coincidência? Não sei. O cara deu em cima de mim? Me convidou para umas cervejas no calçadão com os amigos? Quis me dar seu cartão falando que faz umas festas na sua casa aqui em Porto Alegre? Sim, mas, pelo menos, ajudou. Ele podia ser só mais um babaca no mundo, mas já se retratou um pouco ajudando alguém que precisava.

Bem, com a passagem comprada, fiquei muito mais tranquila e nem me importava mais se conseguiria ou não habilitar o cartão. Se não conseguisse, simplesmente, passaria a noite no terminal ou deixaria minhas coisas lá e iria para alguma festa gratuita de Punta matar tempo até de manhã. Antes de decidir por uma dessas opções, fui comprar algo para comer antes que os mercados fechassem, voltei para o terminal e continuei tentando ligar. Duas tentativas quase e uma que deu certo depois, fui para a avenida principal, sentei em um banco e comi minha hamburguesa enquanto esperava os 10 minutos para o cartão liberar e todos passavam olhando aquela guria com um mochilão azul do lado. Sorri com a situação e dei muito valor àquele momento. Apesar de tudo, estava muito feliz porque estava sendo capaz de passar por tudo isso sozinha e estava me saindo bem. Já nem me importava com os resultados, mas sim com a vivência toda, curiosa pelo porvir, agradecida e aliviada pela passagem para o Chuí, afinal, esse já era o segundo nível alcançado na minha saga. O primeiro havia sido conseguir ligar para o banco.

A foto tá horrível, mas eu era uma Supertramp e essa era uma super hamburguesa

Rumo ao terceiro nível (conseguir sacar o dinheiro), tentei algumas vezes sacar no Banred e não consegui. Já era noite, umas 21h e pouco, ou até mais. Decidi procurar por caixas da Redbrou. Achei dois. Um não funcionava, e o outro estava dentro de um lugar que estava fechado. Continuei caminhando até que encontrei o Banco de la República e, ao lado dele, meio escondido, uma salinha com outro caixa. Entrei. Lá dentro, um alemão puto da cara porque não conseguia sacar dinheiro. Saiu irritado. Parei na frente da máquina, respirei fundo e enfiei o cartão. Poucos segundos depois, eu estava com o dinheiro na mão e, feliz, pude ir para o próximo nível: achar uma vaga em um hostel com a cidade lotada de brasileiros e argentinos.

Fui direto para o Tas D’Viaje Hostel porque estava bem perto de lá e eu sabia o caminho. Conversei com o Juancho, e ele lembrou de mim da primeira vez que fui para lá, em 2013. Consegui vaga em um quarto feminino com banheiro privativo (825 pesos). Nem perguntei se tinha vaga em outro quarto mais barato (pelo que vi depois, não tinha), eu merecia aquele banheiro privativo para tomar o melhor banho da viagem. Quando voltei ao quarto, conheci a Karina e a Liliana, duas paulistas. Elas disseram que iam comer, perguntei se eu podia ir junto. Através delas, conheci Elisa, também paulista e com quem me identifiquei muito (ela seguiria viagem sozinha para o litoral uruguaio no dia seguinte). Saímos para o restaurante onde elas queriam comer massa. Chegando lá, eu decidi pedir um belo copo de chopp. Era minha comemoração particular (e também era uma das coisas mais baratas do cardápio). No primeiro gole, senti uma enorme satisfação e pensei na ironia da vida: em um minuto, a pessoa está sem poder voltar para casa, pobre, sem teto e comendo um hambúrguer que poderia ser a única refeição até aquele momento (e foi); em outro, está tomando chopp em um restaurante caro acompanhada de pessoas legais, que me acolheram em seu grupo com muito boa vontade.

Ficamos lá no restaurante um bom tempo e, quando estávamos indo embora, elas decidiram não ir mais para festa e caminhar um pouco. Eu, decidida a continuar a minha comemoração e aproveitar minha única e imprevisível noite em Punta del Este, me despedi delas e voltei para o hostel para terminar de me arrumar. Elas chegaram um pouco depois de mim, então convidei elas para tomar uma cerveja no bar do hostel. Enquanto eu matava tempo para sair (lá, as festas só começam a bombar lá pelas 2h), ficamos conversando, mas o bar fechou pouco depois. Nós continuamos lá terminando nossa garrafa. Nisso, dois mineiros, Eduardo e Guilherme, sentaram com a gente. Tempos depois, dois argentinos também se juntaram a nós, uma cerveja virou quatro e assim eu fui ficando e desisti de sair. Novamente eles, os imprevistos. Um tempo depois, perto do amanhecer, os argentinos foram embora, as gurias foram dormir e o Guilherme também. Eduardo sentou ao meu lado e continuamos a conversar. Eu disse que ele foi um babaca com os argentinos e que eu queria jogar minha cerveja na cara dele; ele me chamou de marrenta; eu disse que estava com fome; ele me deu um bombom e beijos.

Acordei poucas horas depois, me arrumei rápido, fiz check-out, comi duas fatias de pão com margarina, comprei duas hamburguesas para viagem e peguei o ônibus rumo ao Chuí. Ah, vida louca, louca vida de viajante. No caminho, percebi duas coisas: a primeira foi que as gurias me deram sua amizade, e eu, além da minha, também as levei para sacar dinheiro (coisa que elas não estavam conseguindo fazer) e fiz elas viverem as pessoas da viagem com um simples convite (em 5 dias em Punta, elas não tinham feito nenhuma amizade no hostel e não haviam sentado nenhuma vez no bar); e a segunda foi que eu não havia desaprendido a viajar sozinha e não sei como achei que isso é realmente possível.

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